24 de fevereiro de 2024

Lugar de mulher é onde ela quiser, e o ciclismo é um deles!

Confira a história de algumas mulheres encontraram no ciclismo o equilíbrio para suas vidas corridas

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Não é novidade pra ninguém que as mulheres têm, cada vez mais, ocupado espaços que antes eram ditos apenas como do sexo masculino. No ciclismo não é diferente. O número de mulheres praticantes do esporte vêm crescendo a cada dia e, pouco a pouco elas vão se destacando nas provas, seja pelo número de participantes como pelos resultados conquistados. Como exemplo temos a atleta de Sorriso (MT), Aline Mariga, de 33 anos, que conquistou o ouro no Brasileiro de Ciclismo de Estrada, no dia 25 de junho.

As provas de MTB realizadas pelo ULTRAMACHO tem atraído cada vez mais pessoas do sexo feminino. Ou seja, a mulherada começa a ocupar mais um lugar que é seu por direito, o ciclismo.

Aline e o marido, Osmar Barbosa

E uma dessas guerreiras da bike, com quem conversamos é a Aline Olmedo, 42 anos. Ela contou que desde criança sempre praticou esportes, principalmente a natação, chegando até a ser patrocinada pela Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA), mas a bike chegou para ocupar espaço em sua vida em 2018.

Segundo a atleta, foi o ciclismo que salvou ela e o casamento. “Em janeiro de 2018, meu marido comprou duas Caloi Explora e nós começamos a pedalar juntos. Na época, o casamento estava abalado, e eu não tinha me tocado que o problema era eu, faltava endorfina, adrenalina, todas essas químicas para eu me sentir bem. Com a bike as coisas fluíram. A gente gosta de treinar forte, mantemos a constância. O treino diário faz com que nós tenhamos disposição para enfrentar o trabalho, a vida, a rotina, dois filhos, casa. Não temos empregado, então a gente toca a vida de uma forma simples e o prazer de estar com os amigos, treinando, se desafiando em eventos, isso superando e concluindo é o nosso maior foco”, contou Aline.

O mundo do “pedal”, de acordo com Aline, é realmente de superação, de enfrentar obstáculos, cenários e situações extremas de chuva, lama, sol, cansaço, fome, sede, exaustão e no final poder dizer que conseguiu vencê-los. “Isso aí você não compra em qualquer esquina, né? A sua superação não tem valor, é imensurável o que você pode fazer para se sentir feliz”, enfatizou.

Aline já participou de várias provas em Mato Grosso, como as do ULTRAMACHO, mas também fez a Brasil Ride, pelo Estatuto da União Ciclística Internacional (UCI), com a atleta Lucineia Bruneta. Nesta prova, as atletas conquistaram o terceiro lugar geral na elite, sendo que o primeiro lugar ficou com uma dupla alemã, e o segundo lugar com uma dupla de uma americana e uma brasileira que mora nos Estados Unidos. A atleta contou que também irá participar da Brasil Ride 2022, que será na Bahia, no final de outubro.

Aline ressalta que a experiência no esporte mostra que nenhuma prova de Mountain Bike é igual a outra, as adversidades que podem ocorrer são inúmeras, como errar numa largada, outro atleta te fechar, furar o pneu, cair a corrente, além da resposta corporal do atleta. Além do condicionamento físico, ela lembra que é preciso ter um psicológico muito forte para poder concluir as provas. “A única lição que eu digo é assim, tá difícil, tá ruim? Então, eu vou concluir porque eu sei que no final quem vai se sentir bem sou eu. Então é isso que é o mais gostoso”, enfatizou.

A rotina de treinos também não é fácil. Aline conta que treina pela manhã, e quando não dá, vai na hora do almoço mesmo. Ela faz crossfit e técnica de corrida, além de nadar. O foco atual dela é participar do Iron Man, em agosto deste ano.

A alimentação é o fator mais falho em sua vida, palavras da Aline. Ela conta que nunca conseguiu fazer dieta, além disso, toma um chopinho, come pizza, come os Xs da vida, e enfatiza: eu como açúcar. “Eu realmente não faço dieta, eu nunca fiz dieta e eu sei que sou acima do peso, meu percentual de gordura é acima, mas como eu me considero uma amadora, eu não me cobro profissionalmente para ter um percentual de gordura aí de doze, treze por cento. Não é esse o foco”. Alguém aí se identifica?

Para ela, o esporte é tudo na em sua vida, pois é oriunda de uma família humilde, e por praticar natação conseguiu bolsas nas melhores escolas do estado do Mato Grosso do Sul, e também bolsa da universidade, e é isso que está tentando levar para os filhos também. “Porque um corpo forte é uma mente forte, e a gente supera muita coisa. A gente treina pra poder continuar dormir e acordar firme com o propósito. Eu tenho foco, tenho uma meta, tô cansado, tô podre, mas eu vou seguir pra realizar isso aí”. Aline se emociona ao falar que como o esporte fez diferença em sua vida. “Realmente se não fosse o esporte na minha vida, eu não teria conseguido superar muitas coisas”, concluiu.

Outra guerreira do ciclismo, que é parceira de Brasil Ride da Aline, é a atleta Lucineia Barone Bruneta, que começou no esporte como brincadeira há quatro anos, se apaixonou e não largou mais. Ela contou que a referência no esporte sempre foi a Tatiane Furlan. “Eu ouvia falar muito nela antes de eu pensar em pedalar. Ouvia falar que ela era muito boa, que ia nas competições fora, já tinha viajado para competir. E eu achava o máximo, né? Porque eu acho muito legal as mulheres que se destacam em qualquer ramo, seja no trabalho, seja no esporte, seja em qualquer lugar”, ressaltou.

Lucineia Bruneta

Para ela, os maiores aprendizados que teve no pedal foi que existe um mundo maior lá fora, de pessoas diferentes, de todas as classes sociais unidos por um esporte. “Eu conheci pessoas apaixonantes e que eu vou levar para minha vida inteira comigo”, contou.

Lucineia contou também que, após ter se acidentado na prova do ULTRAMACHO Poúro, no início de maio, ela percebeu ainda mais como o esporte une as pessoas, pois recebeu ligações e mensagens no Whatsapp de muitas pessoas, enfatizando a admiração por ela e desejando melhoras e recuperação rápida. “Eu vi o quanto eu sou querida, né? E tudo por causa do esporte”, ressaltou.

A atleta traz no coração duas provas que fez fora de Mato Grosso e que lhe proporcionaram muita aprendizagem no mundo do MTB, que foi o Desafio de Gigantes em Minas Gerais, e a Brasil Ride, na Bahia. Em Minas, Lucineia conseguiu treinar na pista antes da competição, mas no dia da prova, ao subir um morro, a corrente da bike arrebentou, e a prova acabou ali. Já na Bahia, no Brasil Ride, a experiência foi única, afirmou Lucineia. “O dia que eu puder voltar lá, eu vou voltar, porque é uma prova que você tem que usar toda a sua força, mas uma força, assim, que você traz lá da cabeça. Porque tem que ter muita cabeça, pois é uma prova em dupla, tem que superar todos os obstáculos, as suas coisas e ainda ter resiliência, ou você poderá atrapalhar o seu parceiro ou o parceiro pode te atrapalhar, então tem que ter uma cabeça boa pra conseguir finalizar os sete dias. Foi uma experiência magnífica, foi surreal o que eu vivi lá e espero viver novamente”.

O sonho da Lucineia é participar de uma prova fora do Brasil. Ela ainda não sabe qual, mas admite que é um sonho grande devido à logística e à questão financeira. Enquanto o sonho não se realiza, a atleta ressalta que qualquer prova ela está dentro, sendo que o importante é pedalar e viver novas emoções.

Assim como a Aline, a Lucineia também não tem uma dieta especial, mas quando está chegando perto da prova, procura se alimentar de forma a ajudar a dar energia para a corrida de MTB. Ela faz academia buscando o fortalecimento para ajudar na evolução na bike. A rotina de treinos é bem intensa, são cinco dias da semana, acordando às 4 da manhã. “Faço duas horas de treino, volto, tomo banho, vou trabalhar. Daí volto do trabalho, faço minhas coisas, mais tarde vou pra academia, depois da academia pego os meus filhos, venho pra casa, faço tarefa com eles, janto com eles, e no outro dia faço tudo isso de novo. No fim de semana procuro ir um pouquinho mais tarde, tipo seis horas da manhã, pra poder pegar um pouco de sol. No sábado e domingo, os percursos são mais longos, de duas horas e meia pra cima. Mas também depende para qual tipo de prova eu estou me preparando”, contou.

Lucineia ressalta que a rotina de treinamento dela é como a de um profissional, mas sem as regalias, sem os recovers e massagens, pois quando ela termina de treinar, tem que trabalhar, cuidar dos dois filhos, dar atenção para o marido e cuidar da casa. “É bem power conciliar tudo, mas a gente dá conta, né?”, completou.

A atleta ressalta que o número de mulheres em competições de bike, principalmente de MTB, que é da qual ela participa, vem crescendo a cada dia, e Lucineia acredita que isso se deve às mulheres que já estão competindo e servem de espelho. Ela disse ter ficado orgulhosa de ver tantas mulheres competindo no ULTRAMACHO Primavera do Leste, pois é um tabu que está sendo quebrado, de que não é um esporte só masculino.
“Nós mulheres também poderemos ser fortes igual eles, podemos fazer um esporte e podemos nos dar bem né? Não é atoa que nós temos várias referência aí no Brasil e no mundo. É muito gratificante ver e eu espero que cada vez mais venham mais mulheres pra esse mundo do ciclismo. E o que eu posso contribuir pras pessoas que estão vindo? Dizer que o esporte é maravilhoso, que você não precisa ter uma bike muito cara pra começar e que com uma bike simples você faz a mesma coisa do que com uma bike mais cara. Então pode vir sem medo que tem espaço pra todo mundo!”, finalizou Lucineia.

Para a coordenadora do ULTRAMACHO, Maria Rita Uemura, a crescente do ciclismo feminino é nítida e é necessário que as mulheres lutem cada vez mais por seu espaço. “As mulheres devem exigir que os organizadores entreguem a mesma premiação do masculino ao feminino. Nada justifica isso e, com a premiação justa, as mulheres se sentem prestigiadas e acolhidas no esporte, não sendo vistas como uma exceção, mas sim parte do processo. Fomentar o esporte feminino é obrigação de todos os que se dispõem a realizar eventos de ciclismo. No ULTRAMACHO, desde a primeira edição das provas de MTB, no início da década passada, as mulheres têm a mesma premiação dos homens”, enfatizou.

Nos últimos três eventos realizados pelo ULTRAMACHO, que foram Águas do Cerrado (2021), Primavera do Leste (2022) e Poúro (2022), a média de participação das mulheres no MTB foi de 40 mulheres, o que compreende em torno de 30% da participação masculina. A média de participação masculina nesses eventos foi de 150 atletas por competição.

Números da Federação Mato-grossense de Ciclismo

Para o presidente da Federação Mato-grossense de Cliclismo (FMTC), Valdeci de Jesus Soares, o ciclismo está em franco crescimento, não só em Mato Grosso, mas no Brasil e no Mundo, chegando a mais de 300% em relação ao número de praticantes, tanto para homens quanto para mulheres, mas que a participação masculina ainda é maior, apesar do aumento da participação feminina nas provas e também no credenciamento na Federação.

“É possível verificar nas provas que o número de mulheres que estão participando tem aumentado bastante. Não é ainda como nós gostaríamos, mas estamos trabalhando para que isso aumente, pois as mulheres têm um potencial muito grande, e estamos buscando fazer provas específicas para elas, com largadas em separado, por categoria, incentivando para que elas possam participar mais das provas”, explicou Valdeci.

De acordo com ele, isso já vem acontecendo desde o ano passado pra cá, e o aumento de mulheres inscritas é considerável. Atualmente o número de atletas federados na FMTC é de 219 pessoas, sendo destas 35 mulheres e 184 homens, contra 129 federados no ano passado. Valdeci explicou que ainda não é possível fazer um comparativo em separado de quantos federados havia em 2021 por sexo, pois não havia muito controle e a Federação está se reestruturando agora. A expectativa é de que esse número de federados aumente ainda mais.

“Nas provas, nós temos mais participantes, porque nem todos estão federados. Mas sabemos que é um número que ainda vai aumentar muito, principalmente de mulheres, que estão descobrindo agora que podem ocupar, também, este espaço no ciclismo”, finalizou.

A valorização vem das próprias mulheres e, também, dos organizadores

“A crescente do ciclismo feminino é nítida. E é preciso que lutem cada vez mais por seu espaço. As mulheres devem exigir que os organizadores entreguem a mesma premiação do masculino ao feminino. A justificativa de que o número de atletas é menor para não ter a mesma premiação é uma visão equivocada. Com a premiação justa, as mulheres se sentem prestigiadas e acolhidas no esporte, não sendo vistas como uma exceção, mas sim parte do processo. Fomentar o esporte feminino é obrigação de todos os que se dispõem a realizar eventos de ciclismo. No ULTRAMACHO, desde a primeira edição das provas de MTB, no início da década passada, as mulheres tem a mesma premiação dos homens”, afirma Maria Rita Ferreira Uemura, organizadora do UTM.

REPORTAGEM: DANI DANCHURA

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