22 de junho de 2021

Tive Covid! Posso voltar a treinar?

Cardiologista tira dúvidas sobre o retorno e alerta sobre a gravidade de possíveis sequelas

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Tem sido comum os atletas amadores que foram contaminados com o Covid-19 postarem nas redes sociais o retorno aos treinos logo após a cura. Dividir essa vitória sobre o vírus é realmente um alento para todos. Mas o que muitos desconhecem é que este retorno aos treinos sem supervisão médica pode resultar em danos muito sérios ao atleta e até o risco de morte.

Para a cardiologista Cristina Gama independente de ter sido contaminado, o atleta que nesse momento de pandemia diminui ou parou os treinos precisa conhecer seu estado físico atual. “A Diretriz em Cardiologia do Esporte e Exercício da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade de Medicina do Exercício e Esporte recomenda que todo indivíduo passe por uma avaliação médica antes de iniciar a prática de exercícios.

Considerando- se que a maioria das pessoas parou ou reduziu seu treinamento físico durante a pandemia, é recomendável que antes de retomá-lo sejam submetidas à nova avaliação direcionada. O período da quarentena acabou gerando em muitas pessoas ansiedade, ocasionando compulsão alimentar, gerando ganho de peso e piorando doenças pré existentes como a hipertensão arterial e diabetes”, explica Cristina.

Tive Covid? E agora?

No caso do atleta que teve sua contaminação confirmada. Há diferentes orientações, já que a infecção acomete cada indivíduo de uma maneira. “Importantíssimo salientar que cada caso é um caso. Existem quadros clínicos distintos, pacientes com sistema imunológico diferentes, pacientes com ou sem comorbidades associadas. Portanto, não existe uma receita padrão para todos. Daí a importância de uma avaliação médica cuidadosa e um planejamento individualizado”, afirma a cardiologista.

Há apenas uma certeza em qualquer caso, segundo Gama. “É importante salientar que indivíduos na fase aguda da doença, mesmo que com poucos sintomas, não podem reiniciar a prática de atividades físicas”.

Algumas pessoas podem apresentar sintomas leves do Covid até 12 semana após a manifestação da infecção, porém já não estarão mais transmitindo o vírus. Por isso não é preciso fazer novo exame. Uma avaliação médica bem feita pode avaliar se é possível o retorno imediato à prática esportiva.

As sequelas após a cura

Cristina Gama alerta que “a COVID-19 tem sido associada a um número significativo de complicações cardiovasculares. No entanto, ainda não existem dados a longo prazo, muito menos em indivíduos ativos e atletas competitivos. Baseado no conhecimento estabelecido sobre as Miocardites virais (inflamação do músculo do coração), em geral, é sabido que podem existir sequelas que afetam desde o desempenho físico destes indivíduos até a maior complicação, a ocorrência de morte súbita durante o exercício, pois representam um substrato arritmogênico no miocárdio (o músculo do coração)”.

“Um estudo italiano em pacientes hospitalizados por COVID-19 associada a pneumonia demonstrou que 26% deles apresentaram novas alterações eletrocardiográficas até 51 dias (média de 20 a 30 dias) após o início dos sintomas, quando comparadas com o ECG (eletrocardiograma) de admissão. Vários pacientes apresentavam uma gama variada de arritmias”, alerta a cardiologista.

Mesmo quem teve sintomas leves pode ter sérias complicações

“Após o acometimento por COVID-19, devemos estar atentos às alterações cardíacas sugestivas de miopericardite. Essas alterações podem estar presentes mais frequentemente nos indivíduos que cursam com as formas moderadas ou graves da doença, mas eventualmente, também naqueles que cursam com a forma leve e apresentam sintomas, como dor torácica, palpitação ou sinais de dispneia (falta de ar) e intolerância ao esforço físico”, alerta Cristina.

Fazendo uma analogia para o retorno aos treinos, quando se tem uma miocardite por outros tipos de vírus, como retornar?

“A Literatura recomenda que na primeira semana, APÓS a liberação médica ( pode durar muito tempo de afastamento de atividades competitivas), dependendo do grau de acometimento cardíaco, o volume semanal de treinos deve ser reduzido em 50% e manter a relação treino/recuperação 1:4. Na segunda semana, essa diminuição do volume já pode ser de 30% e manter a relação treino / recuperação 1:3 , após a terceira semana redução de 20%, e na quarta semana reduzir em 10%, lembrando que, caso haja algum sinal de piora clínica, o seu médico deve ser informado”, explica Cristina Gama.
A cardiologista finaliza com uma dica importante “ouça sempre o seu coração, ele nunca erra”.

 

Dra Cristina Gama
CRM-MT 5698
Ciclista amadora e Médica Cardiologista – Especialista pela Sociedade Brasileira de Cardiologia
Especialista em Ecodopplercardiograma pela Sociedade Brasileira de Cardiologia
Aperfeiçoamento em Ecodopplercardiografia – Mayo Clinic – USA
Diretora técnica médica da ICTUS Cordis Check-up.

Bibliografia consultada
1- Association of Coronavirus Disease 2019 (Covid19) with myocardial injury and mortality. Robert O.Bonow, MD, MS;Gregg C. Fonarow, MD; Patrick T. O’Gara,MD; Clyde W Yancy,MD,MSc. JAMA Cardiologogy Published on line March27,2020
2- Outcomes of Cardiovascular Magnetic Rosonance Imaging in Patients recently Recovered from Coronavirus Disease 2019 – JAMA Cardiologogy
3- Montera, Marcelo Westerlund et al. I Diretriz brasileira de miocardite e pericardites. Arq Bras cardiolo., Sao Paulo, v100, n4, supl 1, p.01-36,2013
4- Siddiqi HK, Mehra MR. COVID-19 illness in native and immunosuppressed states: A clinical– therapeutic staging proposal. J Hear Lung Transplant [Internet]. 2020 May;39(5):405–7
5- Covid-19 can affect the heart – E.J.Topol, Science -2020
5 Posicionamento sobre avaliação pré – participação cardiológia após a Covid 19 – orientações para retorno à prática de exercícios físicos e esportes. Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte. Grupo de Estudos de Cardiologia do Esporte, Departamento de Ergometria, Exercício, Cardiologia Nuclear e Reabilitação Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Coordenação Cléa Simone Sabino de Souza Colombo

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